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terça-feira, 17 de novembro de 2015

A Diversidade Sexual de Dragon Age

14:00:00 Escrito por Nyu , , , ,
Existem várias formas de se contar uma história. Em livros, filmes, desenhos animados, quadrinhos e, claro, jogos. Independente da mídia, grande parte delas possuem um fato em comum: o conflito humano. Esse conflito se dá de diversas formas, pode ser psicológico, sociais, interpessoal, etc. Mas a grande parte dos personagens apresentados nessas obras apresentavam quase as mesmas características: homens (em sua maioria) ou mulheres heterossexuais e brancos. E essa característica não ficava apenas no personagem principal,  mas se estendia para os demais ao seu redor.

Estamos no século XXI, ano de 2015, e ainda existem tantos tabus em nossa sociedade, coisas que poderíamos olhar com menos censura e mais compreensão. Por isso, existem certos temas que apenas encontramos em mídias indies, porque sua proposta será apreciada por poucas pessoas, o que é uma pena.

Apesar de vários jogos trazerem as mesmas fórmulas, existem alguns que estão se aventurando por novos terrenos, trazendo personagens diversificados. A Bioware é uma dessas empresas que fazem isso em seus jogos. Não é de agora que ela poe temas como sexualidade ou preconceito em seus jogos. Mass Effect e Dragon Age estão aí para provar isso.

Os primeiros jogos começarem com certa timidez, onde a sexualidade era o ponto mais "polemico", digamos assim. Enquanto em Mass Effect o protagonista era um ser humano que pode se relacionar com alienígenas, algo inusitado dentro dos jogos, em Dragon Age, apesar de elfos e anões, a bissexualidade e a homossexualidade é que deixavam as pessoas de cabelos em pé. Agora deixaremos o efeito em massa de lado e vamos concentrar na era dos dragões.

Como um bom RPG, relações entre os companheiros sempre existiram, normalmente seguindo pelo caminho da amizade. Mas as vezes os personagens se apaixonam e conforme o andar da carruagem, namoram e/ou se casam. Nos RPGs japoneses em geral tudo já é pré estabelecido, o herói - ou heroína - já tem seu romance e apenas esperará o momento certo para se declarar e ambos viverem seu amor intensamente após socar o vilão até a morte. Ou não, como em certos Final Fantasys. Pelo ocidente alguns RPGs seguiram pelo caminho das escolhas.

Em Dragon Age, você pode escolher quem você quer namorar durante sua jornada, e isso não é obrigatório. Em Origins, as escolhas consistiam em dois homem e duas mulheres. Mas apenas Morrigan e Alistair são héteros, enquanto Leliana e Zevran são bissexuais. Os demais membros da equipe não são romanceáveis. No segundo jogo da franquia a coisa segue para um caminho diferente: todos os personagens romanceáveis da equipe são bissexuais. Fenris, Merril, Anders e Isabela poderão ser o interesse amoroso de Hawke.

Vemos, através desses jogos que o único que não possui uma sexualidade pré definida é o personagem principal. Quem define os romances é o jogador. Ele ou ela, por definição, é bissexual, uma vez que pode flertar com todo mundo, até mesmo mudando de relacionamento quando achar que o personagem com quem está não lhe agrada, com restrições, é claro, para Morrigan e Alistair.

Imagine, apenas ser bissexual já pode ser considerado pervertimento na mente de algumas pessoas. A bissexualidade em nosso mundo é vista por muitos como safadeza, confusão, fase, indecisão, fetichismo ou traição do movimento - para os homossexuais.

Em momento nenhum no jogo isso é questionado, os personagens apenas aceitam sem problema algum a sexualidade alheia. Os dois primeiros jogos não tocaram muito nesse assunto, mas o terceiro veio chutando o pau da barraca com essa questão.

Agora temos dois personagens homossexuais em nosso grupo: Dorian e Seras. Dorian já tinha problemas com sua família, e sua sexualidade se tornou mais um deles. Não porque são homofóbicos, mas segundo um codex encontrado no jogo, ninguém liga quem é a pessoa com quem você se deita a noite, a não ser que você seja um nobre. Para garantir a linhagem da família, todos os nobres devem ter filhos. Mesmo que seja homossexual, é aceito que se case com alguém do sexo oposto, tenha apenas um filho e depois durma com quem quiser.

De todo modo, é um mundo onde não existe esse tabu sobre a sexualidade. Você pode ser o que você é sem sofrer preconceito por isso. Em um mundo medieval. Em um mundo virtual. Enquanto na vida real as pessoas se incomodam sobre a sexualidade de outras, mesmo que isso não os afete de forma alguma. Tratar desses assuntos dentro de alguma mídia é abrir espaço para discussões, e Dragon Age consegue fazer isso ao criar um universo com pessoas que levam essas questões de uma forma diferente.

Mas no final eu quero mesmo é dar destaque a um personagem: Cremisius Aclassi, ou simplesmente Krem. Ele é um personagem controverso desde o momento em que aparece. Um homem com uma aparência andrógena e uma voz ambígua. Qualquer pessoa ficaria confusa inicialmente, achando que se trata de um cara afeminado. Mas ao conversar com Iron Bull e sua equipe, conhecendo um pouco sobre cada companheiro, descobrimos mais sobre quem é Krem.

Te apresento Krem.
Ele é um homem trans que tem uma participação considerável no jogo e sua importância na equipe de Iron Bull. Para quem não sabe, ou sempre se confunde, um homem trans é uma pessoa que nasceu com o sexo feminino, mas sua estrutura psicológica é masculina. Mas ser um homem trans não implica que seja homossexual. Existe até uma expressão em "qunandar", a língua do Qun: Aqun-Athlok. Então, para Iron Bull, Krem não é um homem trans, é um homem, independente se nasceu em um corpo masculino ou não. 

Por algum motivo a Bioware ressaltou e ainda explicou sobre o personagem dentro do jogo. Dificilmente vemos personagens trans nos jogos, podemos citar Érika, de Catherine, que tem uma boa relação com os personagens do jogo, mas também existem casos como de Poison, que apesar de não ter nenhuma confirmação por parte dos produtores da Capcom sobre ela, vemos várias discussões se ela é uma mulher cis ou trans, e se for trans, se é cirurgiada ou não (uma discussão que eu considero desnecessária).

Enquanto a maioria dos personagens trans que aparecem nos games e até em mídias no geral são mulheres, Krem segue só (até o momento desconheço outro homem trans nos games) ao lado de suas companheiras. E essa falta de personagens trans é devido ao preconceito, seja do público, seja das empresas. Vivemos em uma sociedade extremamente conservadora, onde o diferente é rejeitado, onde as pessoas não podem ser quem elas realmente são por questão de sobrevivência. E quando quebram as correntes que as prendem, o mundo ao seu redor tenta massacra-las da pior forma possível.
Jogos são histórias, mas também são uma válvula de escape do mundo traiçoeiro que vivemos. Por mais que o jogo tente retratar nossa realidade, sabemos que nosso personagem é um herói ou uma heroína, alguém que vai fazer algo por outras pessoas, alguém que vai salvar o dia. Alguém que vai superar todos os obstáculos para chegar em seu objetivo. E ter pessoas que representem um pouco de si faz com que a pessoa se sinta acolhida, que saiba que ela também pode ser alguém importante, independente de como ela é. Infelizmente a questão das trans é mais complicada, mas para homossexuais ela se torna mais fácil com jogos como Dragon Age sendo produzidos.

Com tudo isso, apenas queria abrir espaço a uma discussão sobre a questão da sexualidade e das pessoas trans nos games, mostrando como um jogo colocou essas duas coisas em seu universo de maneira natural e simples. Que dá para fazer ótimas histórias quebrando preconceitos que existem em nossa sociedade, fazendo um mundo que seria agradável para todos. O jeito que a empresa tratou o assunto em seu jogo foi formidável, e espero pelos próximos jogos para ver mais coisas do tipo sendo construídas.

Tratei apenas de Dragon Age nessa matéria, mas existem outros jogos que abordam o assunto. Aguardo ansiosamente novos jogos que trarão essa postura responsável e madura sobre o tema.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Dragon Age Inquisition

14:00:00 Escrito por Nyu , , , , ,
As vezes as empresas acertam, as vezes elas erram, principalmente quando se trata de séries grandes e multimidia. Dragon Age Inquisition é o tipo de jogo que acerta por um lado mas erra no outro, o que é de se esperar levando em conta que os títulos anteriores dividiram opiniões.

Terceiro título da série Dragon Age, Inquisition foi lançado no final de 2014 pela Bioware, para PC, Xbox 360 e One, e Playstation 3 e 4, e tem legendas em português.

História

Você se vê dentro do Imaterial, lugar onde os demônios residem. Com a ajuda de um espirito, você sai de lá, mas é presa pela Igreja, acusada de destruir a capela e matar a Divina. Cassandra e Leliana te interrogam sobre uma marca em sua mão direita, algo parecido com as fendas, buracos enormes que estão abertos no céu e trazendo os demônios do Imaterial para o mundo.

Essas fendas foram abertas recentemente, principalmente depois da morte da Divina. Mas a sua mão é a salvação. Ela tem o poder de fechar as fendas. Com isso, Cassandra percebe que está na hora de reerguer a Inquisição, uma instituição antiga que surge quando o mundo mais precisa para defende-lo do Imaterial.

Todos acreditam que você é a(o) Arauto de Andraste, a profeta cujo ensinamentos construiu a Chantria e toda a base religiosa de Thedas, e que agora está aqui para salvar o mundo e descobrir o que aconteceu com a Divina.

Mecânicas do Jogo

Como é um jogo para duas gerações diferentes, ele não tem nada de inovador na questão gráfica. Seus gráficos estão na média dos demais jogos que a Bioware produz. Apesar das personagens terem mais expressões faciais, elas são muito mecânicas, assim como a movimentação.

Seu controle é simplificado, e agora temos a opção de pular que não havia nos anteriores. Seu sistema de habilidades é igual ao usado em DA Origins, sendo limitadas a apenas algumas que você deve escolher de suas árvores de especialização. Enquanto no jogo anterior, DA II, se você jogasse no computador teria uma enorme vantagem por poder encher a barra de habilidades com todas as que você tem, aqui ele age igual aos consoles. Apenas o suficiente para preencher os números do teclado.

Em DA Inquisition não é necessário colocar pontos em seus atributos, o jogo faz a distribuição automaticamente, então esqueça tudo aquilo que você aprendeu em Origins sobre habilidades de veneno, carisma, etc, ou então em quais atributos colocar seus pontos para melhorar seu personagem como no II. Aqui você apenas se preocupa em que arvore deseja como especialização para cada personagem. E mesmo que você faça combinações erradas de especialização, pode utilizar um item que as reseta para escolher uma mais interessante. Nesse aspecto, o jogo se tornou muito mais fácil., imagino que seja para dar enfase a história, sem que o jogador se preocupe em montar sua personagem da melhor forma para enfrentar os próximos perigos.

Mas enquanto para que sua personagem fique forte basta passar de nível, para que seus equipamentos, armas e poções fiquem fortes, você precisa coletar metais, plantas e couro, ou seja, se você quer que seus personagens tenham equipamentos descentes, deve passar horas andando pelos mapas a procura dos materiais para então melhora-los na forja. Claro que é possível utilizar a mesa de guerra para obter alguns materiais, mas é uma quantidade muito menor do que pegando por si mesmo nos mapas do jogo.

As batalhas continuam com o mesmo sistema dos jogos anteriores, onde você pode escolher tanto lutar de forma tática, pausando o jogo e posicionando seus personagens, administrando seus recursos e poderes ou apenas controlar um personagem em tempo real, deixando com que a programação - que pode ser customizada - das outras personagens atuem por si só. No quesito de encontros, você pode ver os inimigos de longe, podendo desviar ou ir para batalha, e simplesmente correr para longe faz com que eles parem de atacar. Mesmo que seus companheiros morram, se uma das personagens fugir e a batalha acabar, os outros revivem.


O mundo não é aberto. Ele é dividido por mapas que podem ser acessados pela mesa de guerra, um sistema interessante de fazer missões diplomáticas cronometradas. Aqui apenas os npcs da mesa é que resolvem os problemas, e cada um deles tem seu modo de agir, o que pode garantir boas, más ou nenhuma influencia sobre outras pessoas, nobres ou grupos. Cada um dos territórios fechados e grande e tem uma boa distribuição de inimigos, além de serem bonitos e darem o clima certo. Caso esteja no deserto, sentirá como aquele lugar não tem muita vida, quase uma caminhada solitária por entre as dunas, ou então ao caminhada entre as árvores das florestas, vai avistar diversos animais selvagens vivendo suas vidas.

Personagens e Classes

Além de humano, elfo e anão, a personagem principal também pode ser um Tal-Vashoth. Para aqueles que não conhecem, é a raça predominante do Qun, humanos altos e fortes com chifres, e seu personagem é alguém que abandonou a cultura. As classes disponíveis são guerreiro, ladino e mago, e apenas os anões tem a restrição de não poderem ser magos, já que os anões de DA não tem contato com o Imaterial, a fonte da magia. As escolhas iniciais vão ter influencias durante a trama, seja na história principal, seja no romance escolhido, seja na forma como as pessoas te vêem. Um exemplo é o personagem Solas, que ignora avanços românticos de personagens que não forem elfas. Outro é que ao se envolver em problemas da nobreza, ser mago o fará perder pontos, já que as pessoas tem uma desconfiança de magia no cenário.

A criação não é a unica coisa que fará diferença. Durante a história o jogador deverá fazer escolhas, sejam coisas simples como convencer alguém a entrar para a inquisição, julgar as pessoas ou coisa que pode mudar o rumo da história, e isso se reflete na confiança que seus amigos terão com você. Nem todas as escolhas, respostas e atitudes agradarão a todos. O que, de certa forma, pode fazer com que você manipule o jogo a seu favor, mesmo que você não queira escolher tal decisão. Conversando com seus companheiros e prestando atenção em como cada um se comporta perante cada resposta, você sacará o que cada um quer ouvir, e escolherá as opções que agrada aquele personagem, e não o que talvez você realmente pensa sobre. A ideia de que suas atitudes influenciam no que as personagens pensam de você é muito boa, mas quando o jogo avisa que tal atitude desagrada aquele companheiro, você acaba se sentindo preso em tentar agrada-lo para que ele não saia de seu grupo, ao menos na primeira jogada.

E assim, como uma folha de papel, a(o) Arauto de Andraste será criada durante o jogo. Sua personalidade, seu jeito de agir perante as situações. Apenas no inicio e conversando com seus companheiros é que você constrói um pouco do passado, mas nada que vá realmente influenciar o resto da história. O brilho fica para os seus companheiros.

Dragon Age Inquisition traz de volta vários personagens dos jogos anteriores, como Cassandra,
Varric, Leliana e outras figurinhas carimbadas. Mas apenas Varric e Cassandra estarão em sua equipe, os outros lhe darão assistências. Porém, os novos companheiros não ficam atrás dos já conhecidos. Todos eles são bem trabalhos, tem conflitos, problemas, coisas do passado que voltam para perturba-los, mas também ajudam a Arauto dando sua opinião.

A relação entre eles também é bem construída. Alguns não gostam das atitudes de outros, as vezes eles fazem piadinhas entre eles, se questionam sobre seus passados, entre outras interações que acontecem enquanto caminham pelo mapa.

E sobre a questão de relacionamento, DA Inquisition segue os mesmos passos de Origins, com mais opções, de certa forma. Existem personagens heterossexuais, homossexuais e bissexuais, assim como existe certas preferencia como Solas que só gosta de elfas, Cullen que não gosta de anãs e tal-vashoths, por exemplo. Assim como em DA II, aparecerão corações para escolher flertar com seus futuros romances, e, dependendo da sexualidade, o personagem pode desgostar da atitude da Arauto.

Considerações Finais

O ponto alto do jogo é sua história. Ainda que seja clichê, com a história de alguém escolhido por um deus para salvar o mundo de um vilão terrível, o jeito que ela é contada, a construção das personagens e as influencias que cada atitude traz fazem com que ela seja ótima.

Não há nada de inovador em seu gameplay. A mecânica de escolhas tem seu lado positivo e negativo, mas algo que me chamou atenção foi que mesmo fazendo as coisas por um caminho, você pode fazer a conclusão ser completamente oposta ao que aconteceu até ali. Um exemplo seria a história de Cole: ele é um espirito do Imaterial que se materializou no mundo em forma de um jovem, e a todo momento ele fica perdido entre o que ele era e o que ele se tornou. Mesmo que você siga durante toda sua história influenciando-o para o caminho da humanidade, na escolha final você pode fazer ele ir totalmente para o lado espiritual, contradizendo todo o desenvolvimento. Infelizmente o jogo deixa nas suas mãos algo que poderia ser solucionado apenas pelas opções escolhidas antes.

O multiplayer é interessante. Jogando com outros jogadores, o grupo precisa ser unido para atravessar todo o mapa e concluir sua tarefa. Caso nenhum dos jogadores compreenda o que o outro esteja falando, ou então não exista possibilidade de jogar com amigos, podem existir problemas. O multiplayer é feito pelos jogadores, se a partida foi boa, foi porque todos cooperaram, se foi ruim, foi a falta da cooperação que levou ao fracasso. As partidas são demoradas e não adianta querer correr na frente achando que chegando ao final tudo acaba. Isso só fará com que o grupo todo se ferre e o jogo termine por ali.

A musica é maravilhosa, ajudando a construir o clima. A dublagem é ótima e as personagens possuem o sotaque de sua região: percebemos muito bem que Josephine possui um sotaque francês, ou que Cassandra tem um sotaque mais forte e arranhado. E vem legendado em português.

De todo modo, Dragon Age Inquisition é um ótimo RPG, apesar das falhas evidentes de jogabilidade descritas anteriormente. É um que pela quantidade de decisões e romances, torna o replay indispensável. Como se isso fosse pouco, a Bioware disponibilizou uma linha do tempo que pode ser feita pelo site Dragon Age Keep, onde as decisões dos jogos anteriores influenciarão no Inquisition, aumentando ainda mais o fator replay. Essas decisões podem ser criadas mesmo não tendo jogado nenhum dos jogos anteriores, pois o  DA Keep explica em detalhes as mais importantes do universo do jogo. Como curiosidade, o site foi criado por causa de compatibilidade, uma vez que o Origins e o II foram jogos de Playstation 3 e Xbox 360, e o Inquisition serve tanto para eles, quanto para PS4 e Xbox One.


Fique com nossa série de vídeos trazendo o gameplay desse jogo: